O que você tem feito com os dados que tem?

Assistir a filmes e séries produzidos a partir de informações sobre o gosto do público, considerando o uso de dados detalhados e análises atentas, complexas e minuciosas. Conhecer um artista novo sugerido na playlist do seu app de músicas. Comprar o livro sugerido junto com aquele que você buscava no site de compras. O que você consome em uma plataforma (música, filme ou livro) orienta as projeções sobre o que será sugerido a você para assistir, ouvir ou ler na sequência. E o que subsidia as sugestões, assim como dá informações sobre o sucesso extraordinário que aquele filme – que ainda não começou a ser filmado – fará, são os dados gerados pelos usuários, pelo consumidor, enfim, pelo público, por você.

Fala-se em tecnologia, em big data. Junto com estes recursos, o que permite que o cenário se consolide é o reconhecimento de valor nos dados sobre um produto ou serviço [aqui] cultural. Isso não é novo. Novo, mas já nem tanto, é o uso da tecnologia disseminando e produzindo conteúdos, a partir dos dados mais facilmente compiláveis e organizáveis através dela. Mas, para chegar a resultados relevantes, primeiramente se viu valor nos dados.

Em uma cultura organizacional orientada por dados busca-se conhecer o que existe de conteúdo nos dados do cotidiano. Com relevância do conteúdo presente nos dados é reconhecida; reúnem-se meios para tornar o uso de dados habitual, no contexto das rotinas gerenciais. Reconhece-se valor nos dados gerados no cotidiano. Reconhecer e identificar os dados são passos iniciais em um processo de construção de um novo paradigma gerencial orientado por eles.

Quais são e onde estão os dados sobre a sua gestão? Quem é seu público? Qual o período do mês ou do ano com maior frequência? Qual o grau de assertividade quando é necessário fazer ajustes em um orçamento de projeto ou na projeção orçamentária para o próximo período? Você sabe que existe um volume significativo de informação sobre a sua instituição, negócio ou projeto bem perto de você e a custo relativamente baixo, que você não usa?

Considerando que muitos dados ainda não estão organizados em planilhas ou bancos de dados, por não se perceber relevância em informações textuais ou mesmo por se desconhecer o que métodos associados podem oferecer, muito se deixa de fazer ao desconsiderar o uso de dados no contexto da gestão cultural. Assim, recursos com um valor importante para sua instituição, negócio ou projeto ainda são desconsiderados ou mesmo descartados.

Documentos e registros sobre projetos e programas desenvolvidos ou financiados. Dados sobre público (por idade, sexo, uso de descontos e outros benefícios), profissionais contratados (quantidade, remuneração, formação), tipos de gastos (aquisição de produtos, mão de obra, contratação de serviços, taxas, aluguéis). Conteúdos com potencial estratégicos e utilizados no apoio a tomadas de decisão com chances de impactos tanto no ambiente interno quanto externo às instituições, negócios ou projetos.

Identificados os dados e reconhecida a importância deles, um conjunto de processos é necessário para a extração de valor. Segundo Lilley (2017) a reunião de dados sobre o comportamento do público de cultura tende a ser relevante na construção de argumentos na busca por financiamentos, da mesma forma que servirá para medir seu impacto (LILLEY, 2017). Conhecer metodologias pode permitir que se explorem os dados em perspectivas que vão além das análises descritivas sobre um aspecto específico e permitam ir além do que a proporção de público por faixa etária pode oferecer. Uma gestão orientada por dados permitirá reconhecer oportunidades fundadas no novo paradigma adotado.

Ativos geradores de valor e, frequentemente, usados como insumos para a produção de riquezas na sociedade do conhecimento; dados e informação ganham cada vez mais centralidade, especialmente, em um ambiente movido pelas novas tecnologias. E a gestão cultural ainda tem muito a ganhar com o uso frequente e perene de dados. Ativos estratégicos, a legitimação de dados e informação como commodities ganha importância em um ambiente competitivo e, em alguns momentos, escasso de investimentos. Considerando que são matrizes essenciais na produção de bens e serviços, mas também da circulação e alcance dos públicos deste mercado, a construção de uma cultura orientada por dados [e informações] no cotidiano da gestão cultural tende a oferecer benefícios, também em espaços de negociação e busca por financiamentos, como disse Lilley (2017).

Em matéria publicada na revista Pequenas Empresas Grandes Negócios intitulada “Como a Netflix sabia que House of Cards seria um sucesso antes de lançar a série”, publicada em 29 de março de 2016, lê-se que

a Netflix pega todos aqueles dados que o empreendedor, às vezes, deixa de lado e os transforma em uma espécie de Waze dos negócios, tomando decisões rápidas e eficazes em direção ao destino correto. […] Esta primeira etapa é essencial para o desenrolar de todas as outras atividades dentro de uma cultura de resultados. Sem dados, uma empresa não está tomando decisões inteligentes, o empreendedor está apenas sendo guiado pelo seu instinto que, algumas vezes, pode falhar. […] A Netflix analisou seu mercado inteiro para entender qual série iria repercutir melhor. E não foram apenas pesquisas de comportamento. A organização analisou cada clique, pausa, tempo de retenção nas séries e filmes, aceleração ou desaceleração de frames, entre mil outros fatores, até chegar a uma conclusão. Se eles tivessem parado de analisar logo no primeiro fator, muito provavelmente a análise teria sido comprometida. Afinal, quantas foram as vezes que não clicamos em uma série, mas não ficamos nela por mais de 5 minutos? (PEQUENAS EMPRESAS GRANDES NEGÓCIOS, 2017).

Pode não ser baseado nos mesmos referenciais que a Netflix, nem orientado pelas mesmas metas. Mas os dados tendem a apresentar possibilidades à sua instituição, negócio ou projeto em um ambiente orientado por dados através de outros referenciais, ajudando a entender e lidar com desafios e metas gerenciais cotidianos.

***

Abordando aspectos relacionados com as contribuições da construção de um paradigma orientado por dados na gestão cultural será realizado o Seminário Cultura de Dados na Gestão Cultural, no Oi Futuro, no Flamengo, no dia 29 de novembro de 2017, das 9h30 às 17h. Com painéis sobre o uso de dados, indicadores, metodologias e experiências no campo da gestão cultural na sociedade do conhecimento, nove especialistas apresentarão argumentos, propostas e aplicações convidando à reflexão sobre o uso dos dados em sua gestão.

Mais informações: http://www.oifuturo.org.br/noticias/big-data-na-gestao-cultural/

Referências

LILLEY, Anthony. What can Big Data do for the cultural sector? 2017. Disponível em <https://www.theaudienceagency.org/insight/using-the-evidence-to-reveal-opportunities-for-engagement&gt;, acesso em 16 setembro 2017.

PEQUENAS EMPRESAS GRANDES NEGÓCIOS. Como a Netflix sabia que House of Cards seria um sucesso antes de lançar a série. Publicado em 29 março 2016. Disponível em <http://revistapegn.globo.com/Dia-a-dia/noticia/2016/03/como-netflix-sabia-que-house-cards-seria-um-sucesso-antes-de-lancar-serie.html&gt;, acesso em 02 novembro 2017

Publicado originalmente no LinkedIn, em 28 de novembro de 2017.

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